Registro para a posteridade

De fato, é um bichão...Já que o bichão não estava funcionando, concomitante à questão do motor resolvi que já iria começar a desmontá-lo. Antes, porém, fiz uma bela de uma sessão de fotos (dentro do possí­vel, na garagem apertada). Foram 58 fotos e 3 filmes de trinta segundos.

Aliás, foi até bom pra ver em detalhes a mão-de-obra que teria pela frente…

Olha o tamanho do motor!Após a sessão de fotos, dei início a desmontagem, a começar pelos bancos. Heh… Sem chances. Aquele pedaçoo de concreto calçando-o já não o deixava com uma carinha muito promissora. Tentei localizar alguma trava que permitisse a retirada do banco pelo seu próprio trilho, como é rotineiro fazer em fuscas e carros do gênero, mas não havia nada que o fizesse se soltar. Ademais, à noite e numa garagem escura, definitivamente não havia um clima propí­cio para analisar em detalhes a estrutura do banco.

Paciência.

Precisaria fazer um sistema de iluminação a curtí­ssimo prazo para poder trabalhar no carro à noite, bem como, a médio prazo, pintar a garagem. De branco.

Insisti mais um pouco com o motor, mas ainda assim o carro não pegou. Até ameaçou e deu um belo de um estouro. Mas não pegou.

Mas tá bem estragadinho...É. Tá foda mesmo.

Parece que ainda teremos bastante trabalho pela frente…

A primeira empurrada

Quinta-feira. E QUEM disse que o motor queria pegar? Achei MUITO estranho, pois uma caracterí­stica dele nos dois dias anteriores foi exatamente o “bateu-pegou”. Achei que fosse gasolina.

Mas para que pudesse ir até o posto (bem como comprar o sacrossanto pãozinho nosso de cada dia) teria que tirá-lo da frente, na garagem, pra poder pegar o carro da Dona Patroa.

Meu, já tentou empurrar um Opala sozinho? Ói, deu trabalho, viu. Mas tirei.

Peguei a única coisa que tinha disponível – um garrafão de 20 litros d’água (vazio) – e levei até o posto. Só tinha quatro reais na carteira. Vai ter que dar.

Não deu.

Mesmo após colocar aquele pouquinho de gasolina ele dava o ní­tido sinal de quem estava falhando por falta da mesma. “Bomba de gasolina, carburador entupido ou fora de ponto”, pensei. Paciência. Deixei o carro parado do lado de fora de casa (até porque não estava funcionando mesmo) e fui para o trabalho de carona com a Dona Patroa.

Ao voltar pra casa, à noitinha, debaixo de chuva, novas tentativas.

Nada.

Só restava empurrá-lo de volta à garagem. Que possui não só uma, mas duas pequenas rampas desde a rua até seu interior.

Como diria a Gleice, é de espanar

Não teve jeito. Tive que chamar a Dona Patroa pra ajudar a colocar o Titanic pra dentro do estaleiro. Debaixo de chuva. Depois de muito sacrifício, conseguimos.

Sinceramente, acho que ela não me deixará esquecer isso pelo resto da vida…

E pra coroar “de êxito” o dia, minha sobrinha Isabela, que estava passando uns dias em casa, de repente me perguntou:

– Mas tio, quanto estão pagando pra você ficar com esse carro?

Definitivamente.

Sarcasmo está nos genes da família.

O primeiro defeito

Dia de chuva (aliás, semana de chuva), resolvi que iria novamente de carro para o trabalho. Por via das dúvidas, mais trintão no tanque. Dessa vez fui por outro caminho, a chamada “Estrada Velha”, para senti-lo melhor nas inúmeras curvas abertas e fechadas do trajeto.

De boa…

Aliás, já estava até planejando a começar o trabalho de recuperação logo no dia (ou melhor, noite) seguinte. Resolvi também que faria uma sessão de fotos do carro, para que, futuramente, pudesse comparar o “antes” e o “depois”.

À noite, ao chegar em casa, pra variar esqueci a chave no trabalho. A Dona Patroa veio abrir o portão com o caçulinha. Coloquei-o no colo e ele me “ajudou” a guardar o carro. Nesse momento o limpador de pára-brisa simplesmente parou de funcionar.

Estranho, pensei comigo mesmo. Deveria ser apenas um fusível. Veria isso no dia seguinte.

O primeiro rolê

É LÓGICO que, com um velho carro novo na garagem, eu não iria deixá-lo ali parado sem curti-lo ao menos um pouquinho, antes de encostá-lo no estaleiro para reparos.

Até porque seria mesmo necessário dar umas voltas com ele para “sentir” onde estariam os problemas de maior gravidade.

Ciente da fama de bebedor do Opala, coloquei trintão no tanque e fui buscar o parceiro Evandro para o trabalho. Dá uma esticada daqui, uma acelerada dali, em seguida umas curvas mais fortes no caminho, deu pra sentir orgulho do motorzão 2500 (ou 2.5, se preferirem).

“Mas e aí, como é que ele está?” – foi a pergunta que ele fez pouco depois de entrar no carro.

Eu estava numa reta, em terceira, a cerca de 60km/h. Só dei uma olhadinha de lado, um meio sorriso no rosto, e falei: “diga-me você”.

E pisei.

E o motor rosnou forte de volta. A frente do carro deu uma levantada e a potência do bichão se fez sentir…

Que delícia!

Acho que nunca mais vou ficar satisfeito com carros pequenos (ou normais).

Agora eu entendo o porquê daqueles adesivos que normalmente se vê por aí em carros maiores: “Quem gosta de motorzinho é dentista”

A compra

E então consultei minhas fontes (financeiras). Como sempre costumo dizer, financiamento bom é aquele que você consegue pagar sem se apertar – independente do valor final da coisa. E consegui algo nesse sentido. Liguei pro celular do caboclo e, num primeiro momento, ele não atendeu. Mas me retornou logo em seguida. A cobrar. Paciência, fazer o quê? O interessado era eu.

– E aí? Vamos bater o martelo?

– Ôpa!

– Mas vamos fazer o seguinte: só arranja um pedal de acelerador pra ele, tá? Pode até ser usado mesmo…

– Xácomigo!

Pois é. Havia esquecido de lhes contar esse detalhe acerca do acelerador…

Mas tudo bem. Combinamos que ele levaria o carro às sete da noite para minha casa. Já deixei preparado um contratinho de compra e venda (advogado é advogado, não adianta), e tomei o cuidado de verificar no Detran a situação de multas do carro. A bem da verdade, foi só depois de muita insistência dos amigos Milena e Evandro que fiz isso (taurino é taurino, não adianta).

Liguei pro Evandro:

– Evandro?

– Chora.

– Que é que você acha da idéia de dar uma passada lá em casa hoje? Pra dar uma olhada no carro, sabe como é. Podia aproveitar e jantar por lá…

– COVARDE! Você não quer é estar sozinho pra levar uma guasca da Dona Patroa quando o cara entregar o carro!

– Hmmm… É.

– Tá bom. Seis e meia a gente sai, então.

– Beleza.

Eis que chegamos em casa e comecei um proseio com a Dona Patroa. Papo vai, papo vem, e aí, como foi seu dia, foi bem, e o seu, muita correria, eu também, o cartório tá uma loucura, muitos processos, nem me fale, tô com uma pilha enorme, a propósito, comprei um carro, o cara vem trazer daqui a pouco, e as crianças, será que deram trabalho… PÉRAÊ!!!

Glup.

– Não, pois é, então. Lembra que eu tinha falado do carro que vi ontem? Fechei negócio…

– Não a-cre-di-to.

– Não, olha só… aliás, acabou de chegar! Deixa eu ir lá atender o portão.

E desci as escadas para a garagem, deixando o Evandro (gargalhando) e a Dona Patroa (bufando) para trás. Cumprimentei o rapaz, convidando-o para subir e acertamos os papéis. Nesse meio tempo o Evandro desceu e, quando já estávamos entrando, ele comentou com o ainda dono do carro:

– Escuta, acho que é melhor não deixar a chave no contato não, hein!

O rapaz bateu com as mãos nos bolsos e, em seguida, espalmou com violência a testa.

– Putaqueopariu! Tranquei a chave dentro do carro!

Foi nesse momento, mais pela visão periférica que qualquer outra coisa, que percebi que a Dona Patroa (com um ar resignado) nos deixava ali pra resolver o problema, tendo entrado em casa balançando lenta e negativamente a cabeça.

Com algum trabalho foi possível abaixar o vidro traseiro (que estava com uma chave de fenda prendendo-o) e abrir com estrondo a porta do passageiro (a coluna de sustentação da porta está meio bichada). Assinamos os papéis, preenchi o cheque e ficou acertada a entrega do recibo já autenticado assim que o dinheiro estivesse liberado.

Muito bem, agora era só guardar o bichão em casa.

E quem disse que eu consegui engatar a ré do infeliz?

Tenta de um jeito, tenta de outro, aperta prum lado, aperta pro outro, vai, volta, e nada. Aí eu disse pra mim mesmo: “Mim mesmo, é melhor a gente se preocupar com isso depois”. Engatei a primeira, fiz um balão lá na esquina e entrei de frente mesmo na garagem.

Pouco depois o Evandro foi embora (após ter passado o perigo) e, apesar do olhar cético da Dona Patroa, trouxe a criançada pra garagem pra ver o “carro novo” do papai. Deixei-os tempo suficiente para se divertirem dentro do enorme playground que é um Opala.

Passei cerca de uma hora fuçando na Internet buscando algum manual do carro pra entender um pouquinho mais esse trem doido que tinha acabado de comprar. Consegui encontrar um do modelo de 1978 (deve servir) e dei uma lida. Ah, sim, agora entendi. Para engatar ré primeiro tem que se puxar para cima a alavanca do câmbio e então trazer para direita e para trás.

Solucionado o problema, finalmente fui dormir.

O alívio e a alegria vieram com a última frase da Dona Patroa naquele dia:

– E então? Está feliz com seu brinquedo novo?

Parece que finalmente ela havia entendido…

Eis o Opalão!

Primeiro contato

Domingo. Sol escaldante de quase meio-dia. Peguei minha motoca e resolvi dar uma olhada nos veículos disponíveis na feirinha do automóvel. Desde já chamo de “feirinha” porque ela foge daqueles padrões usuais. É realizada num terreno descampado num bairro vizinho, aqui perto de casa, no Jardim Morumbi, em São José dos Campos. E o estilo de carros que você vai encontrar ali é, na sua grande maioria, da classificação lata velha

É possível encontrar praticamente todos os tipos de automóveis por ali. Fusca, Gol, Passat, Chevette, Kombi, etc. Já vi também DKW, Fordinhos antigos, e um sem número de caminhonetes, motos e carros pela metade.

Cheguei, parei a moto, tranquei e fui dar uma olhadinha no que estava rolando. O som da música sertaneja revezava com o funk que saía das caixas de som que estavam sobre uma caminhonete meio que arriada. Várias barraquinhas, carrinhos de lanche e traillers dividiam o espaço da rua vendendo peças usadas, passando por CDs e DVDs (HAH!), até salgadinhos, churrasquinhos, caldo de cana, refrigerantes e cervejas.

Fui até o mais próximo, comprei uma cervejinha em lata e fui dar uma olhada nos carros.

Particularmente, até pelo meu tamanho (1,90m de altura), estava à procura de um Maverick ou um Opala. Do estilo clássico. Antigão mesmo. De preferência da década de setenta pra trás.

Já tive um Fusca 72 que eu adorava e reformei inteirinho, juntamente com meu pai. Então não seria novidade nenhuma adquirir um carro que tivesse algumas (muitas) coisas para fazer. Até porque isso serviria pra dar uma quebrada no preço…

E então, bem no meio da feira, lá estava ele. Não houve nenhum momento divino, as nuvens não se abriram para jogar um raio iluminado sobre o veículo, ele não estava brilhando… não, nada disso. Entretanto era um Opala e eu possivelmente estava procurando um Opala.

Dei uma olhadinha, no geralzão parecia que até estava mais ou menos razoavelmente um pouco talvez que bom. O preço? R$3.300,00. Bem, preciso dar uma olhada por dentro, ver o motor, etc. E cadê do dono?

Fui até o sistema de som da feirinha (aquelas caixas sobre a caminhonete, lembram?) e pedi para que o proprietário do veículo aparecesse. Deu certo. Conversamos um pouco, vi a documentação – em dia e no nome dele mesmo – olhei o carro por dentro (é, não era lá grande coisa) e pedi para que ligasse o motor.

Praticamente enfiei a cabeça debaixo do capô para ouvir bem o ronco do bichão. Suave. Tranquilo. Constante. Sinceramente, melhor do que eu esperava…

Conversamos mais um pouco, regateei mais um pouco ainda, e chegamos a três contos. Redondo. Poderia até ser menos? Poderia. Mas achei que seria o justo. Combinamos que eu ligaria no dia seguinte para dizer sim ou não, mas que – com certeza – ligaria.

Com esse quase negócio concluído, peguei outra cervejinha e fui olhar sem compromisso outros carros e curiosidades. Mas, intimamente, já tinha começado a fazer planos para a reforma do carro. Faltava só dar os detalhes para a Dona Patroa e aguentar o tranco…